Estava ali sentada, sobre o banco frio e sujo de metal. De costas nuas e lágrimas nos olhos, estrangulava o lenço que mantinha húmido entre os dentes. Negras curvas e rastos de pele ensanguentada, cravavam o meu exterior fresco e vazio.
Ele, não era nada atraente. Tinha o corpo manchado de recordações, uma barba enrodilhada de pêlos ruivos. Mas não era isso que o tornava tão assustador. Um dos olhos, era de tal maneira desproporcional, que quase conseguia ver a minha alma, como se dum espelho se tratasse.
Eu, concentrada em suster a dor bem longe da realidade; ele, concentrado em tornar aquela marca em mais do que um sinal; tu, concentrada em encontrar o caminho até ao balcão.
A campainha suou e todos os olhares se voltaram para o teu rosto. Era vulgar, limpo e estranhamente caricato. Sorriste de forma aliviada, enquanto professavas as palavras “Bom dia, estou preparada”.
Algures na minha mente, não li a expressão no sentido tradicional. Imaginei algo que nunca tinha desenhado antes, na tela dos meus devaneios. Algo, que contrariamente ao teu aspecto, era singular.
Compenetrei-me de tal maneira nas tuas palavras que esqueci a pressão exercida pela agulha que arduamente pintava o meu corpo.
Encaminhada para o outro banco, pouco convidativo, sentaste-te e descobriste a tua coxa, pálida como o Inverno nortenho. Num tom divertido, o outro tatuador sorriu para o ruivo e exclamou: “Parece que hoje tudo optou pelo lado celestial.”.
Nem uma, nem outra, encontrou significado naquela expressão. Talvez não o tenha feito por estar a passar por um momento bastante doloroso. A verdade, é que não procurei uma resposta para esta dúvida, que fluiu poucos segundos depois, como a neve que sublima, mal o calor da manhã nos sorri.
Mal a agulha beijou a sua pele, a rapariga edificou um som, pouco comum aos meus ouvidos, o que me fez dirigir o olhar para o local onde se encontrava.
Em cima da mesa, encontrava-se o retrato que dentro de uns momentos iria surgir através dos seus poros, de modo a ser exibido a todos aqueles que o procurassem.
Um rosto! Mais sublime ainda, o rosto de um anjo. Rosto esse que parecia encaixar-se perfeitamente nas asas que agora esculpiam as minhas costelas.
Lembrei-me do que tinha aprendido nas aulas de Biologia, enquanto ainda era estudante: vasodilatação, erecção dos pêlos e aumento da actividade das estruturas de produção calorífica.
Tudo isto, para explicar o que arrepio que senti, como se me tivesses arranhado o corpo, mais ainda, a mente.
1 comentário:
Já há bastante tempo que não por aqui passava.
Apreciei especialmente como foste desmembrando a história.
Gostei, muito.
Quero ver mais. Escreve. Partilha "experiências". Se todos escrevessem, estaríamos assustados com o que se contam. Sendo apenas alguns, o que separa a verdade da ficção é uma linha ténue...
um beijo*
Enviar um comentário