segunda-feira, 14 de abril de 2008

A saudade mata, mas nunca morre

É absurdo, mas inevitavelmente real, como é a morte nos leva ao arrependimento da nossa postura durante a vida partilhada.
Só quando a pessoa já não está cá para se aperceber da diferença, é que a vontade de mudar algo aparece e se torna o nosso principal objectivo.
Podia ter demonstrado mais carinho, mais atenção, mais paciência.
Mas era nova demais para ser tudo aquilo que hoje desejo ter sido. Nova demais para entender que a vida é demasiado curta para se adiar para o meio-dia e um segundo, o que só pode ser feito quando o sol atinge o ponto máximo do céu.
A doença é como uma corda que nos ata os tornozelos. Faz-nos parar no tempo e abrir os olhos para o chão que nos pode rasgar as mãos.
Podemos tentar negar confiantemente, mas por mais que tentemos recuperar o tempo perdido, nunca é suficiente.
Os beijos que ela me pedia todos os Domingos quando a ia visitar e aos quais respondia com cara feia por ter de os dar, foi das atitudes mais estúpidas que alguma vez podia ter feito.
Mas, quando ela já não os pedia, a necessidade de os dar era cada vez maior e essa possibilidade ia desaparecendo com o tempo.
A vontade de ouvir o meu nome quando lhe perguntava se me reconhecia tornou-se o núcleo da minha vida, e o meu único desejo era permanecer para sempre no seu coração.
Fico tranquila com a ideia de que pelo menos isso aconteceu. Existem poucas coisas que me dão tantas certezas como o facto de ela me relembrar para sempre.
Também ela está presente no meu dia-a-dia, e isso nunca irá mudar.
Não existe ninguém que a possa substituir, ninguém que a possa igualar, ninguém que possa ser tão especial como ela é para mim.
Por mais forte que tente ser, o nome dela derrama saudade nos meus olhos e a vontade de a beijar de novo aumenta de dia para dia, tal como a mágoa de saber que isso é impossível e não há nada que possa modificar esta maldita lei da Natureza.
Gostava de poder alterar muita coisa, mas o que mais queria era recuar no tempo, e iniciar a minha vida de criança, para dar atenção à pessoa que mais me mata por dentro.

3 comentários:

Marta disse...

Penso muito que posso vir a sentir isso em relação aos meus avós...
Temos que os mimar bem :)

Anónimo disse...

De tds os textos q até agora aqui publicaste, este é sem dúvida o meu preferido. Consegues generalizar, individualizando...que é o mesmo que dizer que 'a carapuça enfia-a quem lha servir'... Realmente já conheci uma ou duas pessoas que, qd confrontadas com o drama da morte, mudaram radicalmente o seu modo de ver e viver a vida. Uma infelizmente acabou por não sobreviver. O outro ainda cá anda e sempre q nos encontramos, ñ posso deixar de avaliar a diferença entre a pessoa q eu conheci e a actual. É a prova provada de como isso acontece. Q sirva pra nos ensinar alguma coisa... A nós, q ainda cá andamos, e q vamos sempre a tempo de repensar as nossas prioridades, talvez seja altura de parar, arranjar tempo para dar aos outros, e tb a nós próprios, de lhes dizer o q representam para nós, sem ter q esperar q partam para lhes fazer uma sentida homenagem. É muito nobre, mas absolutamente inútil. Todos gostamos q gostem de nós e q acima de tudo o digam. O ser humano precisa de tão pouco para ser feliz... Podemos estar rodeados de bens materiais, mas se faltar o resto, nada tem valor! E que ninguém duvide q a nossa permanência neste mundo é uma incógnita, por isso mais vale aproveitar enquanto cá estamos.

Anónimo disse...

Falar sobre "Ela" é para mim muito difícil... e é impossível fazê-lo sem que as lágrimas me brotem dos olhos com tal intensidade que me é difícil ver o que escrevo no ecrãn do computador. "Ela" era tão doce, tão paciente, tão amiga, tão correcta,tão carinhosa, tão boa, tão bondosa, tão ..., tão..., tão..., se quizesse poderia estar aqui a enumerar as suas qualidades eternamente mas não é eese o objectivo. "Ela" viveu toda a sua vida para mim e pensando em mim...será que eu a fiz Feliz? É uma pergunta que vive comigo. Uma coisa eu tenho a certeza é que ela me tornou uma pessoa melhor e com ela aprendi que se deve viver para os outros, para os tornar felizes, para os ajudar a crescer com raizes sãs e firmes. Que o amor de mãe existe sempre em quem educa com AMOR. Que não devemos ter medo de lutar pelos nossos ideais mesmo que estes estejam "fora de moda". Que devemos sofrer em silêncio quando sabemos que este sofrimento vai provocar sofrimento nos outros... Apesar de terem ficado muitas coisas por lhe dizer tive a sorte de poder estar, só, com ela nos seus últimos momentos de lucidez, ao seu lado na cama do hospital. Ela apesar de não poder falar podia ouvir-me e pude dizer-lhe o quanto a amava...ou seja o quanto a AMO. Chega? Não, eu sei que não, eu sei que tenho que continuar a demonstrá-lo. O modo que eu tenho de a continuar a AMAR é viver sempre seguindo muito do que me ensinou e transpondo para os outros o que gostaria de poder fazer com "Ela" ou para "Ela". Mariana a melhor maneira de tu lhe demonstrares o teu Amor é fazendo o mesmo...