Racionais, ou intolerantes?
“Tolerância, do latim tolerare (sustentar, suportar), é um termo que define o grau de aceitação diante de um elemento contrário a uma regra moral, cultural, civil ou física.”
Qualquer indivíduo minimamente activo ou apenas informado sobre a sociedade actual, manifesta agrado, desagrado ou imparcialidade perante os problemas que vão surgindo diariamente no seu meio social e um pouco por todo o mundo.
Todos nós, mesmo que às vezes não nos apercebamos disso, adoptamos posições intolerantes quando confrontados com situações que nos parecem completamente erradas, logo vão contra os nossos valores morais. A reacção imediata é julgar o outro porque não pensa da mesma forma que nós, e por isso a sua posição não deve ser tida em conta.
Quando reflectimos sobre um problema que achamos impensável algum dia fazer parte da nossa vida, não nos lembramos que esse pensamento pode estar na cabeça de outro indivíduo, pronto a deixar de ser apenas uma ideia, para se tornar num acontecimento. Por isso é que os limites da tolerância são muito complicados de definir, para não dizer, quase impossíveis.
Ao analisarmos uma situação (sem que estejamos envolvidos nela directamente), como foi o caso da leitura dos excertos do livro “A Morte de Theo van Gogh e os Limites da Tolerância”, de Ian Buruma, podemos assumir dois pontos de vista: podemos considerar que os actos exercidos, pelas pessoas em questão, foram provocados pela inexistência de tolerância ou podemos defender que, quem considera a acção inapropriada é que demonstra intolerância perante os agentes e a situação em causa.
Mas será que não existe um motivo suficientemente aceitável para a realização de uma acção que aos nossos olhos é “moralmente incorrecta”?
Existem certamente inúmeros motivos que desencadeiam este tipo de acções, que para nós são completamente erradas, mas tornam-se a certeza de alguém.
É neste ponto que surge a tolerância. Termos a capacidade de aceitar o outro, tal como ele é, mesmo que não compreendamos a sua forma de pensar ou agir, é inexplicavelmente difícil e por isso raramente acontece. Nem toda a gente acha correcto tentar acreditar em algo que não está na sua essência só para não ser “causador de conflitos”, e muitas vezes acaba por ser responsável por actos que a maior parte das pessoas considera extremistas. Os fanáticos religiosos são um pouco assim. Não aceitam ser criticados por algo em que acreditam e que por sua vez é a sua razão de viver. Para a sua má sorte, existe sempre quem não os tolere, e goste de dar uma palavra sobre o assunto.
Na Europa, os muçulmanos são vistos como uma ameaça, uma vez que o fanatismo os leva a espalhar as suas crenças em países com ideais completamente distintos.
Na Holanda, começaram a surgir acontecimentos que enfureceram os árabes. Diversas personalidades com alguma influência na vida dos cidadãos holandeses, começaram a criticar as atitudes e crenças islamitas.
Esta situação foi divulgada principalmente com o assassinato de Theo van Gogh, pelo jovem holandês de origem marroquina Mohammed Bouyeri. Ao cometer o crime, Bouyeri deixou uma carta criticando várias pessoas que naquela altura contestavam os árabes com bastante regularidade, como é o caso da deputada holandesa de origem somali Ayaan Hirsi Ali, o presidente da câmara de Amesterdão Job Cohen e o líder do conservador do Partido da Liberdade e da Democracia, Jozua van Aartsen.
A verdade é que todos eles, têm ou pelo menos pensam ter razões para não concordar com as manifestações religiosas que os árabes demonstram mas, por outro lado, os muçulmanos são livres de expressar a sua fé. Expressões como: a Holanda “está a ser ameaçada por extremistas que cospem em cima da nossa cultura. Nem sequer falam a nossa língua e andam para aí vestidos de forma esquisita. São uma quinta coluna. Theo disse-o melhor do que ninguém.”, “O governo holandês terá de agir no sentido de proteger quem critica o Islão. Nenhuma religião nem minoria deverá estar imune à censura ou à ridicularização”, “…não quer mudar a nossa sociedade, quer destruí-la.” permitem-nos ver que não existe tolerância por parte dos Holandeses. Em vez de respeitarem as divergências religiosas preferem provocá-los de modo a encorajar-los ao abandono do país. Por outro lado, como responsáveis pela protecção da população, sentem-se obrigados a expulsar aqueles que consideram ser um perigo para a sociedade. Para além disso, alguns deles aproveitam a ocasião para libertar fúrias antigas provocadas por esta civilização.
Mas a falta de tolerância não reside apenas no pequeno país da Comunidade Europeia. Também em terras islâmicas existe racismo, logo a tolerância está ausente desde sempre. Os árabes, foram responsáveis por atentados que mataram dezenas de pessoas, apenas para divulgar “a palavra” básica das suas vidas, tentando que esta se torne universal. As atitudes por eles tomadas estão patentes em: “…foi a frieza dos seus actos, a compostura de uma pessoa que sabia exactamente o que estava a fazer, que impressionou quem viu Mohammed Bouyeri…”, “…no dia 11 de Setembro…jovens muçulmanos a dançar de alegria numa pequena cidade holandesa chamada Ede”, “…três homens tentaram incendiá-la com terebentina e gasolina…”.
É verdade que os muçulmanos utilizam a força para demonstrar a sua revolta, mas as atitudes dos holandeses não podem ser consideradas menos “graves” apenas porque não interferem com o estado físico dos oponentes. Como diz Nora Choua “Mas porque é que haveria alguém de ter o direito de insultar os outros por questões de raça ou credo? Nora salientou que era contra a lei.”
A liberdade de uma democracia liberal permite a existência deste tipo de situações dramáticas, uma vez que as pessoas vêm a liberdade de expressão como um direito de dizer e agir conforme a sua vontade, não pensando nas consequências que os seus actos possam trazer ao meio envolvente. O confronto de raças, religiões e formas de pensamento provoca revoluções, seja qual for o local do planeta.
A sociedade actual parece apenas ver o que separa as culturas, nunca pensando no que realmente nos une e nos torna seres humanos idênticos.
Não podemos dizer que a intolerância tem vindo a ser cada vez mais notória ao longo dos tempos, uma vez que em toda a História Universal existe este tipo de pensamento intolerante e agressivo por parte das nações.
A tolerância na sua essência não deveria ter limites. O mais grave nem é a limitação da tolerância, mas o facto de a intolerância parecer não ter qualquer limite, estando por isso no mundo actual os papéis invertidos. Poucos são aqueles que de livre vontade contribuem para o bem Universal, mas em contrapartida quase todos zelam pelo seu próprio bem-estar.
1 comentário:
Gostei :) Só queria que pensasses nisto:
"A tolerância na sua essência não deveria ter limites."
Até a tolerância tem limites. Quando é posta em causa a dignidade de alguém por práticas religiosas, por exemplo, a tolerância não deve ser ilimitada, não devemos aceitar um acto que prejudica gravemente outra pessoa, por vezes ao ponto de a matar, só porque o agente pensa estar a fazer o melhor, é a qualidade de vida de uma pessoa que está em causa, e para mim pelo menos, esse é um valor que ultrapassa a tolerância.
Tudo bem que se as pessoas tenham crenças diferentes, que pensem de maneiras que eu considero obscenas, mas também essas pessoas têm que ser tolerantes com os que o rodeiam e alguém consciente não pode aceitar atitudes que prejudiquem a vida de terceiros por ser cultural ou religioso.
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