sábado, 18 de maio de 2013

O Caminho


É impossível.

É impossível prevermos aquilo que nos acontecerá num futuro próximo, quanto mais no longínquo. Podemos considerar ter a certeza que sabemos o que nos reserva porque somos senhores de nós mesmos e controlamos (nem que minimamente) os nossos caminhos. “Somos nós que os pintamos”, pensamos. Pois bem, facilmente uma árvore se derruba mesmo em frente ao nosso nariz, cai ali desamparada e o caminho que até há pouco víamos bem definido desaparece. E aí o que fazemos é arranjar um atalho. E extraordinário é que nesse atalho, nunca antes pensado encontramos tudo aquilo que achávamos não existir. No caminho que não seguiríamos por norma, ficamos embelezados com a natureza que nele existe, tão diferente da nossa. Nada daquilo existia para nós antes, e vezes e vezes sem conta vamos atrás daquele mistério, que nos faz caminhar por aquele atalho todos os dias, observar cada vez com mais atenção cada detalhe, até que esse atalho...


...se torna no nosso caminho.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Enfermagem - apenas desabafos

A enfermagem... ainda é daquelas profissões que não sai de segundo plano. Os pais não desejam que os filhos sejam enfermeiros, a não ser que alguma vez na vida tenham estado fortemente dependentes de um destes profissionais e lhes atribuam um grande valor sentimental. Mas mesmo assim... ninguém quer que um filho esteja 4 anos a estudar, a dedicar-se, para depois não conseguir exercer, exercer em condições inóspitas, ter de sair do país e deixar a família para trás... para quê? "Se ao menos fosse medicina" dizem eles, pelo menos queimavamos os neurónios e depois iamos com os bolsos bem cheios para casa.
E nós, enfermeiros, ou futuros enfermeiros, que supostamente gostamos da área e nos imaginamos no papel, tentamos convencê-los de que os benefícios são maiores do que os prejuízos. Mas será mesmo verdade? Eu também apoiava essa ideia, quando andava apenas a estudar a teoria e não compreendia o peso da prática. Mas agora que fui lançada no campo de batalha apercebo-me de como será o meu futuro: com horários que oscilam de dia para dia, semana para semana, mês para mês. Que se por acaso conceber sequer a ideia de ter filhos, provavelmente existirão dias em que não direi mais do que "Tem um bom dia. Amo-te". De que vou estar sempre preocupada sobre o que é melhor ou não para os clientes. De que mesmo a dormir, sonharei se terei dado o meu melhor e se terá sido suficiente. As pessoas continuarão a morrer, mesmo que lhes prolongaremos a vida, e melhor ainda, a qualidade de vida. E nós continuaremos a trabalhar muito, a dar o máximo, a abdicar da família, dos Natais, Passagens de Ano, e todos os feriados e fins-de-semana. De todos os momentos de descanso que nos dão prazer e que nos tornam lúcidos.
Todos dizemos o mesmo, queremos um trabalho com contato direto com o público, em que sintamos os resultados das nossas intervenções. Mas não somos suficientemente valorizados, ainda não, e penso que nunca seremos.
Eu sei que Enfermagem não é a minha vocação, e talvez a escrita seja. Nunca pensaria sequer tirar um curso de letras, envolve demasiadas componentes que eu não desejo estudar. Mas continua-me a fazer confusão este sentimento de que provavelmente me vim meter num buraco, onde me irei arrepender. Não estou arrependida de tudo o que aprendi, mas assusta-me conhecer o meu futuro.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Um dia

Um dia pensarei,
Que um dia já pensei.
Pensei que sim, pensei que não,
Pensei que não queria um sim, e sim, queria um não.
Fartei-me de pensar, calcular, deduzir, extorquir.
Quis amar, mas só amor não quis.
Quis um dia pensar, que amar me traria vida, paz.
E trouxe.........e traz.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Tenho a língua gretada,
Não consigo dizer-te o que sinto.
Tenho a traqueia celada,
Correntes e medo e zinco.

Tenho o coração infectado,
A válvula subnutrida.
Não consigo bombear verdade,
Não consigo explicar a mentira.

Minhas mãos queimadas no inferno,
Não conseguem a tua pele beijar.
O nariz gelado de inverno,
Caiu da lepra lutar.

Joelhos quebrados que sangram,
De quem a Deus suplicou.
De novo o bem que nos cantam,
Bem este que alguém roubou.

Olhos submersos em veneno de ratos,
Que com intenção entornei.
Não quero ver-te em laços,
Com quem eu nunca amei.

Tenho o corpo em pedaços,
Cada ser me devorou o fim.
Têm na pele os meus traços,
Seus lábios cheiram a mim.

sábado, 31 de julho de 2010

O efeito Da'dor

Aquela rapariga! Ali no canto, vês?
Vês como está triste?
Vês como não tem força para se colocar sobre os pés e caminhar?
Vês como não come? Não ri? Não respira?
É verdade, ela está morta.
Se a dissecasses não verias mais do que um ruído oco.
Um corpo completamente desprovido de vitalidade.
Conhece-la?
Aquela rapariga sou eu.

quinta-feira, 11 de março de 2010

Experiências

Estava ali sentada, sobre o banco frio e sujo de metal. De costas nuas e lágrimas nos olhos, estrangulava o lenço que mantinha húmido entre os dentes. Negras curvas e rastos de pele ensanguentada, cravavam o meu exterior fresco e vazio.
Ele, não era nada atraente. Tinha o corpo manchado de recordações, uma barba enrodilhada de pêlos ruivos. Mas não era isso que o tornava tão assustador. Um dos olhos, era de tal maneira desproporcional, que quase conseguia ver a minha alma, como se dum espelho se tratasse.
Eu, concentrada em suster a dor bem longe da realidade; ele, concentrado em tornar aquela marca em mais do que um sinal; tu, concentrada em encontrar o caminho até ao balcão.
A campainha suou e todos os olhares se voltaram para o teu rosto. Era vulgar, limpo e estranhamente caricato. Sorriste de forma aliviada, enquanto professavas as palavras “Bom dia, estou preparada”.
Algures na minha mente, não li a expressão no sentido tradicional. Imaginei algo que nunca tinha desenhado antes, na tela dos meus devaneios. Algo, que contrariamente ao teu aspecto, era singular.
Compenetrei-me de tal maneira nas tuas palavras que esqueci a pressão exercida pela agulha que arduamente pintava o meu corpo.
Encaminhada para o outro banco, pouco convidativo, sentaste-te e descobriste a tua coxa, pálida como o Inverno nortenho. Num tom divertido, o outro tatuador sorriu para o ruivo e exclamou: “Parece que hoje tudo optou pelo lado celestial.”.
Nem uma, nem outra, encontrou significado naquela expressão. Talvez não o tenha feito por estar a passar por um momento bastante doloroso. A verdade, é que não procurei uma resposta para esta dúvida, que fluiu poucos segundos depois, como a neve que sublima, mal o calor da manhã nos sorri.
Mal a agulha beijou a sua pele, a rapariga edificou um som, pouco comum aos meus ouvidos, o que me fez dirigir o olhar para o local onde se encontrava.
Em cima da mesa, encontrava-se o retrato que dentro de uns momentos iria surgir através dos seus poros, de modo a ser exibido a todos aqueles que o procurassem.
Um rosto! Mais sublime ainda, o rosto de um anjo. Rosto esse que parecia encaixar-se perfeitamente nas asas que agora esculpiam as minhas costelas.
Lembrei-me do que tinha aprendido nas aulas de Biologia, enquanto ainda era estudante: vasodilatação, erecção dos pêlos e aumento da actividade das estruturas de produção calorífica.
Tudo isto, para explicar o que arrepio que senti, como se me tivesses arranhado o corpo, mais ainda, a mente.

Feliz Aniversário, Nuno

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Escrever sobre pressão é difícil.
Escrever contrariado é fútil.
Escrever por escrever é inútil.
Escrever sem sentir é mentir com todos os dentes.
Mas, quando escrevemos para alguém de quem gostamos, para lhe demonstrarmos o quanto gostamos dela e a queremos na nossa vida, isso sim, é ESCREVER!
E é isso que eu estou a fazer, ou pelo menos a tentar.
Mostrar-te que és uma pessoa Incrível, repleta de qualidades, mas que não se valoriza o suficiente. Caso contrário, serias uma pessoa muito mais aberta ao mundo e as pessoas que nele habitam. É esse o meu conselho, e sempre será!
És sempre educado quando te diriges a alguém, ajudas sem desejar algo em troca, reflectes bastante sobre os teus defeitos e desventuras, com o objectivo de te tornares melhor de dia para dia.
Mas nem toda a gente é assim, nem toda a gente tem o coração do tamanho do teu, e por isso é que por vezes, sais magoado.
Mas também é para isso que eu cá estou. É para te ver sofrer e te socorrer sem pensar duas vezes.
A verdade, é que a minha vida melhorou, e quando procuro o motivo, algo que nunca estivera lá antes, mas agora está, vejo que és tu.
Não me questionas, não me julgas, não me abandonas.
E eu faço o mesmo contigo! Tento que sejas cada vez melhor, cada vez mais feliz.
Faço tudo para te ver sorrir, porque sei que realmente mereces a minha dedicação.
ÉS RARO! E considera isto como o maior elogio que te podia dirigir!
É por desfrutar das tuas qualidades, conhecer os teus defeitos e saber lidar com todos, que sei que somos e sempre seremos bons amigos.
Mesmo que a vida nos pregue a partida de nos afastar, eu sei que mais cedo ou mais tarde nos haveremos de reencontrar. E aí? A Mariana continuará a ser a Mariana, o Nuno continuará a ser o Nuno. Nada muda quando se gosta de alguém.
Da tua amiga,
Mariana Mendes
Quatro de Novembro de Dois Mil e Nove

3º Capítulo

A verdade?
Poderia ter ficado ali, sentada na espectativa.
Horas que tecem um fio, como a aranha que constrói delicadamente o seu lar, mesmo que temporário.
Podia ter esperado, procurando concentração. Melhor ainda! Explicação.
Podia optar por isto, ou mesmo por aquilo.

Mas não.
Temendo futuros e infortunados momentos, levantei-me, recolhi todos os meus poemas e parti.
Curiosa? Muito. Apaixonei-me em poucos segundos por algo que nem sequer conseguia ver.
Tinha os teus olhos penetrados na minha mente.
Talvez fosse isso mesmo. Talvez se a posse da tua imagem fosse imediata, perderia este doce interesse.
Também o que é realmente importante neste momento, é contar-vos que sim, fui-me embora.
Ainda o olhei uma vez, e vi uma expressão completamente diferente. Vi uns olhos vermelhos. De raiva talvez. Talvez fruto da minha mente distorcida.
Durante o percurso, várias vezes ponderei voltar para trás e voltar a sentar-me no meio das folhas secas que o castanheiro vertia.
Mas não! O meu orgulho consumia todas as minhas decisões, e nunca voltava atrás, por ninguém.
Segui o meu rumo, para o lado oposto ao qual te encontravas.
Esperava agora nunca mais te ver, para que a minha consciência não chorasse.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Água e sal ... apenas?

As lágrimas não são tão límpidas como aparentam.
São negras gotas carregadas de ódio. São o manifesto de algo que o mundo não evita, o sofrimento.
A voz carregada de espinhos que a sociedade sementa. Não nos deixam expressar irreverências.
Tudo dói. Tudo mata.
E eu? Continuo igual, mas sem sorrir.

domingo, 3 de maio de 2009

A Menina de olhar avelã

A história tem um início muito bonito. Um sonho …

Um sonho conservado no seio da infância, um desejo fértil.

Esta determinação conservou-se na consciência até à idade madura.

Queria albergar no seu ventre, o fruto do seu amor.

Amor materno, insubstituível.

Desta esperança de vida, nasceu uma menina.

Frágil como um cubo de areia, palma da mão a rodeava de protecção.

Os seus cabelos inspiravam a noite, nevada pele de macia textura.

A menina foi crescendo, contrariando todos os desejos.

Deixou a fragilidade com a qual nascera e começou a lutar com as suas próprias convicções.
Deixou de ser a pérola que corre o risco de se perder quando a concha abre a sua mandíbula.
A menina tornou-se como a mãe.

Cada traço da sua face, cada sinal que desenha o seu corpo como um mapa intersticial, cada artéria, cada ventrículo, cada nefrónio. Cada tecido que a constitui só se parece como tal porque durante oito meses a tinham guardado o mais perto possível.

As lágrimas que vertem alegria contêm sal.

Sal esse, que só existe porque, unida pelo cordão, a menina germinou da cultura materna.

Mesmo estando fora do seu organismo, continuou ligada à mãe indefinidamente.
Viver, é arriscado para quem não se preparou.

A menina nunca poderia ver a vida como um perigo, visto ter recebido o melhor dos ensinamentos.

Considerava-a assim ,uma bênção.

A menina tornou-se poetiza.

Pintava palavras pelos cantos do mundo, escrevia sorrisos onde eles pareciam padecer e apagava o sofrimento daqueles que não o mereciam.

A menina nasceu, cresceu e um dia morrerá. Contudo, ela confidenciou-me de que, quando isso acontecer, leva consigo a maior das experiências.



A Menina, AMOU A MÃE INCONDICIONALMENTE.


Apesar de já não ser uma menina, ela sabe qual é o seu futuro. E a mãe? Essa continuará sempre na primeira fila do seu coração.